Diálogos contra a Reforma

A – Então? Semana passada você falava da Reforma Trabalhista, e sobre uma Autonomia Coletiva da Vontade, certo?

B – Boa memória!

A – Você chegou a falar que é como um condomínio onde uma empresa quisesse colar na fachada
de meu prédio um cartaz me tampando as janelas. Ora. Eu não deixaria.

B – Mas te falei pra imaginar que essa empresa pagasse a teu vizinho de andar pra ele aceitar. E com ele tendo aceito, a empresa convence mais um vizinho, com um pouco menos de dinheiro.

A – Não pode! A fachada é do prédio! Não dos apartamentos! O direito é de todos! Só com todo mundo junto, em assembleia, se poderia fazer isso.

B – Isso! E com teus direitos do trabalho ocorre exatamente o mesmo! Os direitos não são teus, para negociar sozinho com o patrão. Porque um trabalhador isolado sempre tenderá a ceder, na esperança de manter o emprego. Os direitos são coletivos, para serem decididos em assembleia! Ou eram…

A – Eram?

B – Até a Reforma…

A – Muito do que você falou faz sentido. Mas tô na dúvida. Olha só, você disse que a Autonomia Coletiva é do século XIX…

B – Isso.

A – Então? Hoje temos o Uber, o Zap, o banco online, o Facebook, o Waze, o Google…

B – E daí?

A – Daí que temos acesso a muito mais informações, e nossa produtividade no trabalho é muito maior! Será que não temos que ter uma relação de trabalho mais moderna?

B – Rapaz, esse papo não tem nada de moderno. É muito velho! Essa conversa sim é que é do seculo XIX!

A – Como assim? Vai dizer que o Uber e o Zap são do século XIX?

B – Não, mas o raciocínio é. Desde que o tear mecânico passou a ser movido pela força hidráulica, e depois pelo vapor, no início da Revolução Industrial, o papo dos patrões é exatamente este. Justificam todas as barbáries em nome da liberdade de contrato, e da maior produtividade gerada pelas inovações tecnológicas.

A – Mas agora não é diferente? Tudo muda muito rápido…

B – É verdade. Sabe? Dois críticos disso tudo que acontece escreveram que vivemos uma “falta de segurança sem precedentes”…

A – Isso mesmo! Vivemos!

B – Uma época em que mudam “todas as relações sociais antigas e cristalizadas”, que são substituídas por outras, e que essas novas, antes mesmo que se estruturem, “tornam-se antiquadas”.

A – Humanas não é minha área, mas é isso!

B – “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Isso não define bem o que vivemos?

A – Sim! Com certeza! Essa frase define bem! Já a ouvi em algum lugar. Quando isso foi escrito?

B – Em 1848.

A – Caramba!

Normando Rodrigues
*Originalmente publicado na edição nº 1009 do Jornal Nascente