Divisão sexual do trabalho e a luta das mulheres

Por Beatriz Mendonça

O ano era 1917, ainda levariam mais vinte e seis para que a legislação trabalhista fosse consolidada quando as trabalhadoras da fábrica têxtil “Contonifício Crespi” em São Paulo deram início ao que podemos chamar de materialização da oposição entre capital (lucro) e trabalho. As mulheres paralisaram as atividades fabris na tentativa de causar prejuízo ao empregador ou empregadora e, com isso, chamar atenção para suas pautas, entre elas: a redução da jornada de trabalho, melhores condições de serviço e fim do trabalho noturno e dos assédios sexuais exercidos pelos supervisores e superiores hierárquicos. A primeira Greve Geral do Brasil iniciou-se, então, na capital paulista, mas logo tomou conta de outros setores de trabalho, cidades e até mesmo estados, tendo as mulheres como precursoras.  

No mesmo ano, tecelãs em Petrogrado iniciaram o movimento grevista que antecedeu a Revolução Bolchevique na Rússia. Cansadas de despedirem-se de seus maridos convocados para a guerra, trabalhando mais de treze horas por dia, sem condições financeiras para alimentar seus filhos e filhas e percebendo o aumento nos preços dos produtos de subsistência; as mulheres, que amadureceram a consciência política em movimentações anteriores, ocuparam papel de vanguarda na Revolução Russa.

As grevistas, em ambas as situações, encontraram desafios semelhantes aos que hoje são enfrentados pelas mulheres em todo e qualquer espaço público. Assustadoramente, apesar dos avanços das últimas décadas, ainda se evidencia um padrão de desigualdade sexual depois de cem anos.

Tal cenário é reconstruído continuamente na tentativa de reafirmar características biológicas como determinantes para diferenciar aptidões e justificar a divisão sexual do trabalho, ou seja, os padrões de comportamento a serem seguidos por cada gênero são convencionados por instituições sociais como a família, a igreja e o Estado que, através de argumentos morais, religiosos, sociais e até mesmo econômicos, reforçam os estigmas de cada lugar social.

É evidente que existe uma gama de possibilidades, porém, após considerarmos as pluralidades dos seres sociais, o ponto comum é de que a expectativa sob a ocupação do espaço público tenha como sujeitos seres dotados de racionalidade, justiça e imparcialidade, ou seja, características atribuídas aos homens e esperadas dos mesmos no exercício de suas funções. Contrariamente, espera-se da figura da mulher uma postura proveniente da lógica do cuidado, ou seja, parcial e voltada ao âmbito doméstico, da sentimentalidade irracional e, por vezes, do afeto.

Portanto, os homens são lidos e reconhecidos enquanto pessoas/indivíduos, através da lógica do “eu”, já as mulheres são enquadradas na lógica do “outro”, ou seja, não são vistas como seres políticos nem dotadas de completude.

A dificuldade em conciliar o trabalho reprodutivo e o trabalho produtivo, sendo o primeiro não mercantil e o segundo diretamente ligado à mais valia, tem sua raíz na existência da tripla jornada das mulheres que, muitas vezes, dividem seus dias em três eixos: cuidados do lar (lavar roupa, cozinhar, limpar a casa), cuidados com a família em si (cuidar das filhas e filhos, dar atenção ao esposo ou esposa e perpetuar o bem estar de todas(os)) e os cuidados com o trabalho remunerado que é exercido fora da esfera doméstica.  

A síntese, para além da exaustiva jornada evidente, é a de que existe uma enorme dificuldade para as mulheres da classe trabalhadora que anseiam alcançar altos postos no espaço público ou que desejam envolver-se politicamente em espaços deliberativos.

A solidez dos postos em que estas mulheres são colocadas compromete a possibilidade de qualificação (cursos, estudos, faculdade) e o eventual engajamento político, o que, mais tarde, surge como justificativa para discriminação salarial e coloca em segundo plano a urgente necessidade de questionarmos o modo de produção no qual estamos inseridas.

Sendo assim, a tentativa de conciliação dos trabalhos de natureza evidentemente dispare (produtivo x reprodutivo) nos leva à lúcida dificuldade imposta pela estratégia do capital, o “teto de vidro”: uma barreira invisível que passa desapercebida pela ilusão da igualdade de oportunidades e de meritocracia.

Como bem abordado pela socióloga brasileira, Heleieth Saffioti, o modo de produção capitalista é um fenômeno histórico, sendo assim, é “passível de constante alteração de acordo com elementos socioculturais e econômicos de cada momento.” Ainda, para a mesma autora, são definidas potencialidades diferentes para as categorias sociais – de gênero e de raça, a fim de desviar a atenção das tensões sociais do capitalismo.

As mudanças nas relações de trabalho, portanto, constroem-se com a reorganização do modo de produção capitalista e são necessárias para que a produção se molde às novas perspectivas de cada grupo social e seus respectivos potenciais de produção, compra e geração de lucro.

Nesse sentido, da mesma maneira que em determinado momento a estabilidade da classe operária e a monogamia foram decisivas para a propriedade privada, temos também o avanço das tecnologias e maquinarias que substituiram em partes a força de trabalho humana e intensificaram as atividades, como ocorreu na suposta modernização trazida pela Revolução Verde nas décadas de 1960 a 1980 que inovou através da mecanização e do uso de agrotóxicos na agricultura.

Nas últimas décadas, seguindo a mesma lógica, o capitalismo industrial absorveu parcialmente a mão de obra feminina, porém, sob a justificativa da divisão sexual do trabalho, não ofereceu uma remuneração equivalente à masculina; além de adaptar o mercado de consumo com estratégias de produtos mais caros voltados ao público feminino e/ou LGBT através do “pink money”, fazendo com que os gastos desses segmentos sejam elevados sob a máscara do apoio aos movimentos sociais e à suposta “diversidade”.

Também enquanto manobra, mantém-se uma parcela da população desempregada para que a procura por emprego não seja menor que as vagas e não gere prováveis ações reivindicatórias por aumento de remuneração. Desta maneira, o capitalismo não precisa justificar a massa de mulheres que não é absorvida pelo trabalho mercadológico, afinal, quando estas trabalhadoras não são empurradas a ocupar nichos mercadológicos, estão presas, exclusivamente, a serviços não remunerados e invisíveis, os chamados serviços domésticos, tidos como “naturalmente” e tradicionalmente: femininos.

Esses são apenas exemplos que procuram ocultar as contradições do capitalismo. Contudo, é importante reconhecer que as trabalhadoras são de extrema relevância para a acumulação de capital de seus empregadores, afinal, as mulheres trabalham por jornadas estendidas e com remunerações inferiores, além de serem responsáveis pela reposição da força de trabalho, tanto na reprodução de seus filhos e filhas, quanto nos cuidados com “o lar” e tudo que nele habita.

A entrada da mulher no mercado de trabalho não é um ato subversivo, primeiramente porque no início o capitalismo se adaptou para essa nova mão de obra majoritariamente desqualificada e barata. Em segundo lugar porque o trabalho da mulher não é generalizado, evidenciando a perspectiva adotada de que as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre as questões que constroem a discriminação definem o indivíduo e possibilitam uma série de socializações, portanto, sabemos que existem mulheres plurais e não um tipo universal do gênero feminino.

O trabalho fora do lar, hoje entendido como produtivo, sempre esteve presente para a mulher negra, as mulheres afroamericanas não são contempladas pelo discurso ocidental de luta pelos direitos das mulheres, já que, enquanto a feminista branca busca romper com a ideia de fragilidade e entrar no mercado de trabalho, a mulher negra é mão de obra no Brasil desde o período escravocrata e luta, até hoje, para ser reconhecida enquanto pessoa.

Partindo desta análise, podemos dizer que os nichos mercadológicos são diferentes. Enquanto as mulheres brancas cogitavam o magistério e a enfermagem, as mulheres negras estavam submetidas a serviços precarizados com intensa presença no emprego doméstico.

Sojourner Truth, na primeira Convenção Nacional pelos Direitos das Mulheres, rebateu os argumentos que colocavam as mulheres como incapazes do sufrágio universal por não possuírem autonomia, supostamente precisando sempre de ajuda dos homens em suas tarefas mais simples. Truth relatou sua rotina alheia à ideia de fragilidade e infantilização da mulher branca, levantando-se em defesa da não generalização do “ser mulher”.

De qualquer maneira, o trabalho do lar passou por uma naturalização e sua não remuneração é um grande exemplo da importância transversal da mulher para a manutenção do modo de produção capitalista.
O trabalho reprodutivo não se exaure na reprodução humana, ele também abrange a reprodução da força de trabalho de forma gratuita, permitindo que o trabalhador exerça as suas atividades mercadológicas com mais valia, afinal, existe uma figura feminina que cumpre as funções de alimentá-lo, lavar suas roupas e manter a casa limpa e organizada. É, como já explicado anteriormente, um trabalho precarizado porque não gera lucros diretos ao detentor dos meios de produção e porque é exercido, majoritariamente, por mulheres e meninas, mesmo quando terceirizados.

Apesar de todas as dificuldades, a história se mostra importante ao nos revelar o destaque das mulheres nas lutas populares. O mercado de trabalho não foi, nem tampouco pretende ser neutro às relações de gênero, portanto, a luta por uma sociedade que reconheça as diferenças e as encare de maneira a construir uma equidade, se faz necessária. Daí a importância das pautas que se firmam no Movimento Feminista, para o reconhecimento da mulher enquanto ser político ativo e completo, como a exigência de creches gratuitas, de direitos reprodutivos, de igualdade salarial, de autonomia sobre os corpos e, sobretudo, de democracia!

Sabemos que o predomínio de valores masculinos nos força a reconhecer as diferenças e evidencia o traço predominante para a análise da desigualdade de gênero: a divisão sexual e racial do trabalho, ou seja, o trabalho produtivo e o trabalho de reprodução, vinculados e dependentes.

Se faz urgente atentar-se mais uma vez, além das trajetórias e ideologias construídas acerca do papel do homem e da mulher na sociedade, às contradições colocadas pelo modo de produção vigente, afinal, para que alcancemos a perspectiva de uma sociedade justa com as pluralidades dos homens e mulheres, suas etnias, orientações sexuais e crenças deve-se quebrar a lógica da continuidade histórica das relações de poder e do teto de vidro do capitalismo patriarcal!

Hoje, oito de março de 2018, encontramos uma difícil conjuntura no país. A instabilidade política que veio com o golpe é dia a dia tensionada, seja com o impedimento machista e golpista da presidenta Dilma sem crime de responsabilidade, com as pautas da Contrarreforma Trabalhista e Previdenciária ou com a intervenção militar no Rio de Janeiro e o desmonte da educação. Recentemente, as barreiras colocadas para a candidatura do Lula e, consequentemente para uma eleição democrática, assustam porque apontam para uma fraude eleitoral.

Estão cada vez mais evidentes os riscos que vem sofrendo um projeto de nação pautado pelos movimentos populares com base na Democracia e na garantia de acesso ao solo, à água, à saúde, à cultura e à dignidade, nos lembrando da necessidade de subversão das mulheres trabalhadoras do campo e da cidade, através da consciência de que nosso corpo sustenta o mundo.