A falácia do agronegócio

O “Jeca Tatu”, personagem criado por Monteiro Lobato, simboliza um trabalhador rural que passa a imagem de desconhecimento, de doença, de vagareza e, sobretudo, de atraso. O personagem, sob a visão daqueles e daquelas que nasceram e viveram na cidade, simboliza de maneira simples o que enxerga-se do campo: um local distante, atrasado, alheio às mudanças e passível de esquecimento.

Ao contrário, a realidade do campo se dá de maneira organizada, intensa e lotada de conhecimentos. Afinal, existe uma pluralidade de saberes ignorados pelo cenário urbano, mas que nem por isso deixam de existir. Agricultoras e agricultores são sujeitos precursores de variadas técnicas de produção, medicina, agroecologia e coletividade.

Aproveitando-se do imaginário urbano de que o campo é arcaico, necessitando, portanto, de “modernização” para contribuir economicamente com o país, o agronegócio encontra o terreno ideológico perfeito para sua manutenção enquanto poder econômico, político e social, corroborando a idéia de que a terra não é direito.

Prova disso é a campanha atual da Rede Globo que tem como marca o slogan: O AGRO É POP, AGRO É TECH, AGRO É TUDO. As propagandas enaltecem a modernização do campo, como se as maquinarias e instrumentos tecnológicos simbolizassem uma evolução necessária.

O agronegócio produz aquilo que tem potencial de lucro e é demandado pelo mercado internacional, enquanto o capital financeiro controla todo o processo de produção: desde a semente a ser forjada, a terra utilizada e as produções a serem priorizadas, até quais etapas da cadeia produtiva serão enaltecidas e quais serão escondidas!

Enquanto a agricultura camponesa que tem sua estrutura na agroecologia, na produção sem veneno, na coletividade e na Reforma Agrária Popular é criminalizada, os meios de comunicação tradicionais dizem que “o agro é pop”, que “o agro” gera emprego, que “o agro” gera riqueza. Mas não falam que a Lei de Terras de 1850 vem sendo colocada em prática até hoje, buscando manter a posse da terra nas mãos de poucos latifundiários. Não nos contam que “o agro” não modifica a estrutura social e reproduz as relações de trabalho análogo ao escravo e que “o agro” utiliza agrotóxicos e venenos com conseqüências ainda ignoradas nas nossas terras para plantar monoculturas para exportação.

Engana-se quem pensa que os recentes acontecimentos na cidade não se relacionam com o que acontece no cenário rural. As mesmas personagens que concentram-se em destruir qualquer tentativa de combate à lógica da concentração fundiária e da propriedade privada, corroboram para a manutenção dos poderes, mesmo que eles sejam erguidos na fome e na morte de milhares de mulheres, homens e crianças brasileiras.

Por: Beatriz Mendonça