O dia seguinte

Toda a conjuntura brasileira girou ao redor de LULA, esta semana. E LULA, magistral no pior momento, e novamente comparado a Getúlio, “entrou pra história sem precisar sair da vida”, como bem pontuou Rodrigo Perez Oliveira . Mas LULA não foi o único ator determinante do drama.

A melhor evidência didática de que não vivemos em um Estado Democrático de Direito nos foi prestada pelo comandante do Exército, às vésperas do julgamento do Habeas Corpus, em mensagem dirigida ao STF. Testemunhamos um inovador Golpe Militar pelo Twitter. Villas Bôas disputava a liderança da tropa com Etchegoyen, e foi de pronto seguido por manifestações políticas de 5 outros generais da ativa.

O resultado é que o Exército exigiu, e o STF entregou o pedido, com flores de Rosa Weber e Carmen Lúcia. Pra que constituição? A afinação entre militares e juízes, pela manutenção e aprofundamento do Golpe de Estado de 16, é tão grande e descarada que minutos depois da “ordem” de Villas Bôas a página oficial do TRF4 “curtiu” a mensagem do comandante do EB.

Consumado o supremo estupro à Constituição, seu melhor significado foi evidenciado pela catedral do Deus-Mercado, no dia seguinte: o Ibovespa disparou 2% em poucos minutos de pregão, puxado por Petrobrás e BB (altas de 4% no dia). A leitura é clara: com o PT fora do caminho, e a Esquerda desaglutinada, as privatizações do que resta de mecanismos estratégicos de intervenção do Estado na Economia são visiveis no horizonte.

O entusiasmo durou pouco, ante a precipitada ordem de prisão de Moro, e consequente resistência de LULA em São Bernardo, com as imagens de sua concreta popularidade a rodar o mundo: a bolsa despencou na abertura do pregão de sexta. O Golpe descobriu que um juiz-meganha imbecil pode ser tão inconveniente quanto milicianos assassinos, entusiasmados pelo Estado de Força nas ruas.

Em meio a tudo isto, a força bruta do Golpe está nas ruas, em cada esquina. Nas manifestações em São Paulo, Rio, ou Curitiba, os infiltrados, mal disfarçados como agentes “secretos” de comédia barata, são visíveis, como confirmou matéria do insuspeito “Estadão”, no sábado, dia 7.

O ANÃO

No polêmico Livro Segundo de “Dom Quixote”, Sancho Pança é alvo de uma longa troça da divertida nobreza, e pensa ser governador da inexistente Ilha de Barataria. Assim é Temer. Apesar de seu homem forte, o ministro da Segurança Institucional, ter sido fragorosamente derrotado por Villas Bôas, o vampiro acha que governa, e tenta sucessiva e pateticamente ser ator político.

Primeiro, receoso das consequências do julgamento no STF, defendeu o uso das Forças Armadas na segurança pública (Estadão, 4/abr). Depois, no sábado, pediu “paz social”, lamentou “divergências radicais” na população e, num rasgo de sinceridade, assumiu que “aproveita a impopularidade para adotar medidas de interesse do país”.

Temer pelo menos parece ter compreendido que foi escanteado pelo Golpe. Manter a candidatura é apenas um ato formal de “saída honrosa”, em sua distorcida visão de mundo.

Por outro lado, atos falhos dos arautos do Golpe vazam a vitória de nossa narrativa: em editorial de fim de semana da Folha de São Paulo, a propósito da crise deflagrada pela prisão de LULA, significativamente se menciona a necessidade de ser mantida a normalidade “republicana”, e não mais “democrática”. Diferença importante.

O uso da força, na política, continuará ostensivo até as eleições. E, independentemente dos rumos da Esquerda, teremos mais e mais cenas de violência política.