O NOME NA BALA

Conheci um professor de Direito Constitucional que apregoava ter o Fascismo chegado ao poder, na Alemanha de inícios de 1933, por vias democráticas. Alguns anos depois descobri que esta bobagem é uma espécie de mantra da nossa inculta Direita – perdoem o pleonasmo.

Esse tipo de leitura formal se aferra aos aspectos burocráticos da Democracia, sobretudo o voto, para declarar sua existência. Somente prospera se ignorarmos a realidade.

Na Alemanha, por exemplo, para declarar o Fascismo como filho da Democracia, seria preciso ignorar que as eleições de 6 de novembro de 1932 foram precedidas de violência política, com perseguições e agressões físicas a quem pensava diferente, que o NSDAP de Hitler não obteve maioria dos votos, mas 33%, e que na 1ª sessão do Parlamento após o novo governo, em 30 de janeiro de 1933, socialistas e comunistas – que juntos formavam 37% da casa, com 221 deputados – foram presos ou expulsos por guardas armados de submetralhadoras, e banidos da política.

É bastante natural que os hoje alinhados ao Golpe, ou a um Bolsonaro da vida, apregoem o tipo de leitura formal que deturpa os fatos e tanto possibilita negar o Golpe como chamar nosso estado de coisas de normalidade democrática, pois é esta a realidade que pretendem e realizam no Brasil de hoje.

Ao tolerar as mais grosseiras violações à Constituição, vindas de um Parlamento feudal, de um STF corrompido pela própria vaidade, e de um Vice Presidente ávido pelo poder, nossa sociedade se predispõs à aceitação da barbárie, do convívio social e político desregrado, da entrega de qualquer bem público, e da submissão aos mais vis interesses. Executivos da Shell e Maersk no Conselho de Administração da Petrobrás? Boeing comprando a Embraer? Noruegueses destruindo a Amazônia? De nada importa. Não existem mais instituições às quais se possa confiar denúncias e esperar intervenções.

Tudo tolerado, tolera-se que munições da Polícia Federal e Forças Armadas matem uma liderança de esquerda no Rio, e que sejam usadas contra o acampamento pró-Lula. Que tiros sejam disparados contra ônibus do Lula, e diversas lideranças rurais sejam mortas. Tudo bobagem, pois você continuará aí, parado, a achar que a bala não tem teu nome.

Acontece que a bala já atingiu seu alvo em 16. O nome nela era “Democracia”. E esse também é o teu nome. Tanto que agora tu vives os efeitos de seu fim.

“E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.