Qual é a arena?

É inegável o avanço da Direita, no Mundo e no Brasil. Configura-se uma realidade onde a população não é um determinante sobre a Economia, nem sobre a Política.

A “Indústria 4.0” (integração vertical – customização padronizada – automação/inovação), por exemplo, ignora o ser humano: carro da Uber, sem motorista, que atropela e mata, no Arizona; “motorista” de um Tesla, em piloto automático, que morre ao colidir com barreira de concreto, na Califórnia.

E, do exato mesmo modo, as institucionalidades que essa estrutura edifica tendem a dispensar a soberania popular. Foi assim que Zuckerberg e outros se indagaram: “se manipulo dados de consumo e consumidores, por que não posso fazer o mesmo com a política?” E, de pronto, surge o embuste da Cambridge Analytika, determinante da vitória de Trump.

Se é certo que o centro de gravidade do sistema não se deslocará para a “Indústria 4.0” – continuará no Capital Financeiro – mais certo é que o exemplo serve para provocar a necessária reflexão quanto ao lugar da Humanidade nesse modo de produção.

E aqui, em Pindorama, temos bons dados para tal. Em 19 de março de 18, manchete do Estadão apontava: “Tecnologia faz renda crescer no campo e vaga informal cair – Em 5 anos, emprego recuou, mas rendimento médio do trabalho subiu 7%, diz estudo”.

Menos emprego, com maiores salários, combinados com redução da massa salarial, implica em aumento de concentração de renda, no País onde este é o maior problema estrutural. Todavia, isto não interessa ao Estadão. E quase não interessou a principal notícia de 29 de março: o desemprego de mais de 13,1 milhões de brasileiros, correspondentes a 12,6% da população economicamente ativa.

POLÍTICA SEM POVO

Como a Economia Neoliberal é antipovo, deve ser preservada de inoportunas deliberações políticas, para que possa desviar recursos públicos dos Direitos Sociais para o lucro dos capitalistas. Em outras palavras, a Soberania Popular não deve determinar a Economia.

No Brasil, com vistas a alijar a “interferência nefasta” do povo sobre a Economia, sobretudo após 12 anos de bem sucedida intervenção estatal ampliadora dos Direitos Sociais, a Burguesia realizou o Golpe de Estado de 16. E, para lhe dar continuidade, dispõe de um naipe de possibilidades que vão desde o mero retrocesso institucional até o Fascismo declarado, passando por diversos graus de autoritarismo. Neste momento o Golpe está por definar qual dessas alternativas será a predominante, e a luta interna é tão intensa quanto a que se dá entre os presidenciáveis golpistas.

MILITARES

A Intervenção Militar no RJ, programada desde Maio de 17 e apenas não realizada devido à crise Joesley/Wesley, deflagrada a 17 daquele mês, teve o condão de colocar a farda novamente como protagonista político. O Exército flexiona seus músculos como materializador do poder de fato do Gabinete de Segurança Institucional, e este, por sua vez, atua como pilar central de sustentação do Gov. Temer.

Evidente que isso não seria possível sem condições mínimas de hegemonia, com a apropriação do pensamento autoritário predominante em parcela significativa da população brasileira.

Interessante queda de braço se travou sobre a verba necessária à intervenção, a qual foi promovida sem nenhum preparo orçamentário. Enquanto o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão falava em “algo ao redor de 1 bilhão de reais”, o General Interventor pedia 3,8 bilhões. Temer fixou a quantia em 1,2 bilhões, em 27 de março. Qual o signicado dessa disputa e arbitragem?

O debate está longe de ser orçamentário, vide as dezenas de bilhões sucessivamente liberadas para manter a base de um governo claudicante. O fato é que os generais, de Etchegoyen ao Secretário de Segurança, passando pelo Interventor, declaram aos quatro ventos que o plano é fazer do RJ um laboratório para o resto do País, e a dotação de meios assim vultosos lhes é essencial para tal objetivo.

Por outro lado, os golpistas parecem recear os efeitos experimentados por Kennedy e Lyndon Johnson no Vietnã: ao transformar uma questão política em debate militar, a esfera de deliberação da primeira natureza tende a ser suplantada pela da segunda, e a representação civil se torna progressivamente refém da estrutura castrense. É preciso manter os militares no cabresto. Como, todavia, os golpistas já os colocaram no palco, resta restringir-lhes os meios, para que se mantenham meros coadjuvantes.

EFEITOS DA MILITARIZAÇÃO

A Intervenção é a assunção pública, pelo Estado, de que as instituições democráticas não conseguem lidar com o problema da segurança, no exato oposto do que afirmam apoiadores do Golpe de 16, como o presidente da OAB/RJ. Por consequência, o apelo à solução de força cria o “ambiente de negócios” ideal para a ação de grupos armados, sejam milicianos paramilitares, fascistas, ou ambos.

É neste cenário que se dá a execução da vereadora Marielli, e de seu motorista, no dia 14 de março. De muito maior significado para a Esquerda, entretanto, foi a execução de 5 jovens em Maricá-RJ, na madrugada de 25 de março.

Tratavam-se de militantes da União da Juventude Socialista, e a execução se deu num conjunto habitacional do “Minha Casa, Minha Vida”, mas não um conjunto qualquer, e sim em um chamado “Carlos Marighela”. Difícil o recado ser mais explícito, mas a Esquerda insiste em o ignorar.

No dia 27 de março 3 tiros foram disparados em ônibus da caravana de Lula, no interior do Paraná. No dia 28 a Comissão Pastoral da Terra registra o maior ataque de sua trajetória, com a prisão do Padre Amaro, em Anapu-PA. No mesmo dia o delegado adjunto do PR, que de pronto qualificara o atentado à caravana como tentativa de homicídio, foi afastado do inquérito policial.

Há uma escalada da violência política, e não serão os discursinhos de Carmen Lúcia a evitar o acirramento.

LULA

Ante este pano de fundo, o general Etchegoyen lançou, via Ricardo Noblat, o melhor de seus balões de ensaio, no dia 28: “Um ministro muito próximo do presidente Michel Temer duvida que haja eleições em outubro próximo. Acha que o agravamento do quadro de tensão política no país não permitirá”.

A 29 o Planalto estremece com a bomba Dodge-Barroso, que determinou a prisão dos “homens do Presidente”, à frente deles o Cel. Lima, prisão que é resultado direto da quebra de sigilo bancário de Temer et caterva, determinada por Barroso no dia 5.

Note-se que a prisão foi etapa da disputa interna do Golpe. Seguiu-se imediatamente ao anúncio da chapa “Puro Golpe”, Temer-Meirelles, feita a 27. E não durou muito. Dado o recado a Temer (A chapa não é competitiva, então não se assanhe!), no dia 1° de abril as manchetes noticiam a soltura dos amigos, via novo acordo Dodge-Barroso. Não por acaso os arautos do Planalto agora correm a bradar que o Vampiro é “candidatíssimo”, na tentativa de superar o revés.

E ainda, no mesmo dia, Etchegoyen, sem ter significativas reações negativas a seu balão de ensaio (só o Jornal do Brasil se alarmou) dá a manchete do JB, anunciando ser necessária mais segurança para Temer. Estranho caso em que os agressores usam o exemplo da agressão para justificar mais agressão. Etchegoyen ensaia seu “Incêndio do Reichstag”.

Aprofundando sua estreita colaboração com o Golpe, juízes e procuradores militantes políticos fazem pressão sobre o STF, a 2 de abril: “Se o Supremo conceder o habeas corpus no dia 4, milhares de assassinos, estupradores e corruptos serão colocados em liberdade”. A eles se soma, no dia 3, general de 4 estrelas da reserva: “Se STF permitir Lula candidato, não restará alternativa a não ser intervenção militar”.

O jogo tornou-se mais rigoroso. Nada indica que tenhamos um Abril sem o acirramento do Golpe e da violência política.

Eleições de 18? As dúvidas passaram da escalação para a realização do jogo.