11 de agosto – No dia do estudante e do garçom, vale investigar: por que os banqueiros, que se alimentam de brasileirinhos há décadas, seriam os salvadores da civilização brasileira?

Nesta data, em 1827, o tal Pedro, que de primeiro passou a quarto, decretou a criação dos cursos inaugurais do ensino superior brasileiro.

Tratava-se de afirmar a soberania intelectual e científica num país de pseudo-elite escravista, racista e misógina que costumava mandar os filhos para Coimbra ou França, com o fim específico de saberem manter tudo como estava.

Quase duzentos anos depois, o Brasil se levanta a partir de uma carta em defesa do estado democrático de direito, saída de uma faculdade.

Carta que é resposta explícita às seguidas ameaças de golpe de estado do presidente e candidato fascista, queridinho da mesma pseudo-elite escravista, racista e misógina, que agora manda os filhos para Miami e segue aferrada ao mesmo propósito de dois séculos atrás: manter tudo como está.
 
Tudo como está

É indispensável definir precisamente o “tudo como está” no Brasil:

– 1 em cada 4 moradores das grandes metrópoles sobrevive abaixo da linha de pobreza, maior número desde 2012 (PNAD-IBGE); o rendimento médio das famílias também é o menor desde 2012, e desde então temos hoje a maior desigualdade social, medida no índice de Gini;

– a pseudo-elite faz fila na compra de jatinhos, helicópteros e iates, sem impostos, ou deles muito aliviados; já a fila da fome em Mato Grosso – estado campeão na produção de soja, milho, carne bovina e pescado fluvial – distribui “ossos de qualidade”, segundo o governador bolsonarista.

– os mais ricos pagam, em média, menos de 5% de sua renda em impostos e tomam dinheiro emprestado, inclusive do governo, a pouco mais de 14% de juros anuais;

– os mesmos impostos abocanham até 50% da renda do assalariado e os 30% do eleitorado que receberão os 600 reais do auxílio reeleitoral pagarão até 80% de juros anuais se pegarem o empréstimo consignado autorizado pelo presidente Lobisomem;

– os juros pagos pelos pobres têm destino certo; 62 brasileiros contabilizam patrimônio pessoal acima de 1 bilhão de dólares e a renda somada dos 10 mais ricos é maior do que o PIB do Equador; 5 desses são banqueiros.

Comida

Enquanto mais de 33 milhões de brasileiros não têm o que comer e mais de 90 milhões de outros não conseguem completar 3 refeições diárias, os bancos continuam vorazes.

Para os saciar o presidente Monstro almoçou a 8 de agosto com representantes da Febraban, Bradesco, Itaú, Santander, XP, J.P. Morgan e Citibank. É provável que os comensais tenham urdido, em meio à comilança, devorar o que resta da democracia tupiniquim na entrada, e mais umas centenas de milhares de brasileirinhos no prato principal, assim selado o novo eixo.

Afinal, por que os banqueiros, que se alimentam de brasileirinhos há décadas, teriam pudores quanto a se aliar com quem devora gente? Estariam aptos ao papel de salvador da civilização brasileira?

A diferença entre banqueiros e fascistas reside em estes últimos proporcionarem antropofagia no atacado, sendo capazes de eliminar 700 mil apenas de Covid-19, e de acelerar a desindustrialização, o barateamento recorde da mão de obra e a agrarização da economia.

Todavia, o brasileirinho teima em espernear, em vez de se deixar devorar quietinho, como deveria. Daí o presidente fascista, banqueiros e agrotrogloditas, necessitarem de jagunços, alguns até voluntários com acesso facilitado a fuzis e a munições sem rastreio, conforme os desmandos presidenciais. E quando não bastam os jagunços, entram em cena milicos e meganhas, tornados jagunços pela partidarização, incivilidade e desejo de matar.

Curiosamente, numa cabal demonstração de ausência de autocrítica e de arrogante incivilidade, os partidarizados milicos pretendem atuar como neutros garantistas da civilização no processo eleitoral. Realismo fantástico.

A despeito da jagunçada, não é raro os brasileirinhos aprenderem que se organizando podem desorganizar e combinarem “não morrer”. Tanto que a pesquisa “Confiabilidade Global” (Ipsos) revelou que só 30% acreditam nos militares, percentual não por acaso próximo ao dos que se alinham ao fascismo.

Em contrapartida, os brasileirinhos que aprendem têm maior grau de confiança (64%) num grupo muitíssimo mais importante, o dos professores. Sem professores nenhum dos números que nos permitem ver o “tudo como está” seria visível, o que explica estarem na mira das armas a serviço do Monstro.

Deseducação

Em 2013, estimulada não por professores, e sim por interesses escusos, certa camada foi às ruas abraçada à Rede Globo. Dentre pautas do tipo “menos 20 centavos na passagem” e “menos ar nos sacos de batatas fritas”, reivindicavam “mais educação”.

Daquele parto induzido nasceram a Lava Jato, o golpe de 2016 e a prisão de Lula para impedir sua vitória em 2018. No balanço final, as “jornadas de junho” de 2013, supostamente “pró-educação”, reduziram o orçamento federal da pasta.

Em 2013 nosso orçamento da educação pública era o maior da história do país, em termos relativos e absolutos, e esse marco foi superado em 2014. Apesar de reduzido em 2015, por conta da crise na arrecadação, o valor naquele ano foi o 6° maior tanto da história do Brasil como dos governos do PT, com 174,4 bilhões de reais. Graças à “jornadas” esse montante caiu para: 119,77 bi em 2019; 114,25 em 2020; e 90,29 bilhões em 2021. E ao fim de 2022 será bem menor.

Educação, contudo, “não é só orçamento”, disse um dos ministros sem educação do governo fascista, quer tenha sido o 1°, que não sabia se expressar em português; o 2°, que não sabia pensar em idioma algum; o 3°, que não sabia o que colocar no currículo; ou o 4°, que não sabia ler sequer o manual de instruções de sua pistola. Um deles o disse, e estava certo. Deve-se cuidar do conteúdo.

Prova disso é que saem das academias militares oficiais aptos a aparar oralmente o gramado, a julgar por suas declarações sobre qualquer coisa, do mesmo modo como saem das escolas de direito e de medicina juristas fascistas e médicos curandeiristas (vai aqui uma oração com dois oximoros que se emparelham a “inteligência militar”).

Transição

A reconstrução desta nossa arrasada Pindorama exigirá a revisão e acompanhamento contínuo das graduações, cuja finalidade não pode ser a conservação dos privilégios daquela mesma pseudo-elite escravista, racista e misógina.

E, no que tange à por enquanto intangível formação oferecida pelas academias militares, nossos milicos terão que ser severamente doutrinados na democracia, minimamente incutindo-lhes como mantra uma lembrança do saudoso Millôr Fernandes, corrente à época da outra carta por democracia saída da faculdade de direito da USP, em 1977:

CIVILIZAÇÃO vem de CIVIL!