Selena de Aracruz: uma reflexão sobre as consequências das digitais fascistas de Bolsonaro

Por Normando Rodrigues

O massacre de Aracruz tem as digitais do fascismo e de Bolsonaro. Mas a culpa maior reside em nós, tolerantes do intolerável.

É certo que Bolsonaro é o mandante inspirador de mais esse crime, no qual contou com a cumplicidade militante do pai do homicida. Isso, porém, não é central aqui. 

Tampouco é relevante lembrar que a desumanidade fascista se alimenta da miséria emocional e sexual em que vivem seus portadores, incapazes de compreender diferenças e complexidades de outros seres humanos e da sociedade. Impotentes, resta-lhes o discurso de ódio e a conduta exibicionista e violenta.

O que verdadeiramente importa na tragédia de Aracruz é a nossa autoria coletiva.

A menina Selena, de 12 anos, e as demais vítimas de Coqueiral, começaram a morrer no momento em que permitimos a apologia a matanças, golpes de estado, fuzilamentos e torturas, por uma besta-fera travestida de deputado federal, ao longo de três décadas.

A tortura merece destaque. No dia em que Bolsonaro teceu loas ao animalesco criminoso Brilhante Ustra – aquele que enfiava ratos vivos na vagina de prisioneiras, e que aprendeu a torturar crianças na frente dos pais com o carniceiro de Lyon, Klaus Barbie (miliciano fascista que torturou até a morte o herói de França Jean Moulin, sem obter uma única informação) – naquele dia, Selena e as outras já morriam. 

E morriam e morrerão, após a morte, a cada dia em que ônibus escolares se tornarem alvo de tiros – sim, tiros em crianças, um padrão – nos bloqueios fascistas nas estradas; a cada vez que estudantes que se dirigirem às provas do Enem tiverem que caminhar quilômetros sob a zombaria de imbecis; a cada ataque fascista a escolas, tipo os verificados nos últimos meses no Ceará, RJ, Bahia, Goiás e no próprio Espírito Santo.

E continuam a morrer em cada bala “achada” em corpos tendencialmente pretos e pobres, como os 14 que a polícia do fascista Cláudio Castro eliminou em duas comunidades do Rio, no mesmo dia do desfecho em Aracruz.

São muitos os propagadores dessas mortes e boa parte deles se pretende “cidadão de bem”. São, no entanto, assassinos tão responsáveis por Aracruz quanto por uma nova Auschwitz, projeto inscrito no programa político que defendem. 

Ainda há tempo de dar aos fascistas o tratamento que a Constituição e o Código Penal lhes reserva, restaurar a democracia e punir didaticamente os terroristas. Ainda há tempo.

Só então, finalmente punidos os fascistas, talvez tenhamos legitimidade para olhar nas fotos os olhos da menina Selena e, contemplando neles as luzes dos milhares de futuros interrompidos por Bolsonaro, pedir um contrito perdão por todas as nossas omissões.